• Rafael Mariano

Ocupe o nicho perfeito – Estratégia darwiniana - Parte 2

Para Yoky Matsuoka, a infância foi um período de confusão e inde􏰀nição. Criada no Japão, na década de 1970, tudo parecia ter sido planejado antecipadamente para ela. O sistema escolar a levaria a áreas adequadas a garotas. Os pais, defensores da importância dos esportes na educação, a empurraram para competições de natação ainda muito criança. Também a levaram a estudar piano. Para outras crianças japonesas daquela época, talvez houvesse sido bom ter a vida programada daquela maneira, mas, para Yoky, tudo aquilo era doloroso. Ela se interessava por todas as áreas, sobretudo por matemática e ciências. Gostava de esportes, mas não de natação. Não tinha ideia do que queria ser nem de como poderia se encaixar naquele mundo programado e controlado.

Aos 11 anos, ela 􏰀nalmente se impôs. Já se dedicara muito à natação e agora queria aprender tênis. Os pais a atenderam. Muito competitiva, acalentava grandes sonhos como tenista, mas estava começando um pouco tarde. Para compensar o tempo perdido, teria que se submeter a um programa rigorosíssimo de treinamento e prática.


Todo dia, pegava o trem para a periferia de Tóquio e fazia o dever da escola no caminho de volta para casa. Muitas vezes tinha que viajar em pé no vagão lotado, mas, mesmo assim, abria o livro de matemática ou de física, e trabalhava com as equações. Ela adorava resolver problemas, e, enquanto fazia o dever de casa, 􏰀cava tão entretida e absorta que nem sentia o tempo passar. Por mais estranho que parecesse, a sensação era semelhante à que tinha na quadra de tênis – uma concentração tão profunda que nada a distraía.

Nos poucos momentos de ócio no trem, ela pensava no futuro. Ciências e esportes eram os dois grandes interesses de sua vida. Por meio deles, expressava todas as diferentes facetas de seu caráter – o amor pela competição, por trabalhos manuais, por movimentos graciosos e coordenados, pela análise e solução de problemas. No Japão, era preciso escolher carreiras muito especí􏰀cas. Não importava o que escolhesse, ela teria que sacri􏰀car os outros interesses, o que a deixava deprimida.


Um dia, sonhou em inventar um robô que jogasse tênis com ela. Inventar e jogar com o robô atenderia aos diferentes aspectos de seu caráter; mas era só um sonho.

Embora houvesse subido no ranking para se tornar uma das tenistas mais promissoras do Japão, ela logo percebeu que aquele não seria seu futuro. Nos treinamentos, ninguém a vencia, mas nas competições quase sempre 􏰀cava paralisada, levando muito a sério o jogo e perdendo para adversárias inferiores. E, ainda por cima, sofrera algumas lesões debilitantes. Teria que se concentrar nos estudos, não nos esportes. Depois de frequentar uma academia de tênis na Flórida, ela convenceu os pais a deixarem-na estudar nos Estados Unidos e a se matricular na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Na faculdade, ela não conseguia escolher uma especialização – nada parecia satisfazer à sua ampla gama de interesses. Na falta de algo melhor, optou por engenharia elétrica. Um dia, contou a um professor seu sonho de produzir um robô que jogasse tênis com ela. Para sua grande surpresa, o professor não riu de sua ideia, mas a convidou para trabalhar em seu laboratório de pós-graduação em robótica. O trabalho dela se mostrou tão promissor que, mais tarde, foi admitida no curso de pós-graduação do MIT, onde passou a trabalhar no laboratório de inteligência arti􏰀cial de robótica do pioneiro Rodney Brooks. Na época, estavam desenvolvendo um robô com inteligência arti􏰀cial, e Yoky se ofereceu para projetar as mãos e os braços.

Desde criança, ela se impressionava com as próprias mãos enquanto jogava tênis, tocava piano ou escrevia as equações. As mãos humanas são um milagre da natureza. Embora não se tratasse propriamente de um esporte, ela trabalharia com as mãos para construir mãos. Ao encontrar alguma coisa que, enfi􏰀m, atenderia à amplitude de seus interesses, dedicou-se dia e noite à construção de um novo tipo de membros robóticos, algo que possuísse tanto quanto possível a sensibilidade e a delicadeza das mãos humanas. O projeto de Yoky surpreendeu Brooks – estava anos à frente de qualquer coisa que alguém já tivesse desenvolvido.

Sentindo que faltava algo fundamental em seus conhecimentos, resolveu fazer pós- graduação também em neurociências. Se pudesse compreender melhor a ligação entre a mão e o cérebro, ela seria capaz de projetar um membro protético com a sensibilidade e a versatilidade das mãos humanas. E prosseguiu no processo, adicionando novos títulos ao seu currículo. Por 􏰀fim, acabou desenvolvendo uma disciplina nova, que denominou neurorrobótica – o projeto de robôs com versões simuladas da neurologia humana, trazendo- os mais perto da vida em si. A criação desse campo lhe conferiria grande sucesso cientí􏰀co e lhe outorgaria o máximo de poder – a capacidade de combinar livremente todos os seus interesses.

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