• Rafael Mariano

Descarte o passado – Estratégia da adaptação

Desde que nasceu, em 1960, Freddie Roach foi preparado para ser campeão de boxe. O pai havia sido lutador pro􏰀ssional e a mãe, árbitra de boxe. O irmão mais velho de Freddie começou a aprender o esporte ainda muito criança, e, ao completar 6 anos, Freddie foi levado ao ginásio local, na zona sul de Boston, para iniciar rigorosa aprendizagem. Ele treinava várias horas por dia, seis dias por semana.

Aos 15 anos, sentia-se completamente esgotado. Arranjava cada vez mais desculpas para não ir ao ginásio. Um dia, a mãe percebeu a realidade e lhe disse: “A􏰀nal, por que você luta boxe? É atingido o tempo todo. Não sabe lutar.” Ele estava acostumado às críticas constantes do pai e dos irmãos, mas ouvir uma avaliação tão franca da mãe produziu um efeito estimulante. Sem dúvida, ela achava que o irmão mais velho é que estava destinado à grandeza. Naquele momento Freddie decidiu que de alguma forma provaria que ela estava errada. E retornou ao regime de treinamento com novo ânimo. Descobriu dentro de si mesmo a paixão pelos treinos e se sentiu movido por uma disciplina ferrenha. Gostava da sensação de melhorar, adorava os troféus que se acumulavam e, mais que qualquer coisa, sentia-se empolgado por agora conseguir vencer o irmão. O amor pelo esporte havia sido reativado.

Freddie se revelava o mais promissor dos irmãos, e o pai o levou a Las Vegas para impulsionar sua carreira. Lá, aos 18 anos, ele conheceu Eddie Futch, treinador legendário, e começou a treinar sob seus cuidados. Tudo parecia muito promissor – ele foi escolhido para a seleção de boxe dos Estados Unidos e começou a subir no ranking. Não demorou muito, porém, e ele se deparou com outro obstáculo. Aprendia as manobras mais e􏰀cazes de Futch e as praticava com perfeição, mas, na luta real, as coisas mudavam. Assim que era atingido no ringue, voltava a lutar instintivamente; as emoções levavam a melhor sobre ele. Suas lutas se estendiam por muitos rounds, e ele muitas vezes perdia.

Em poucos anos, Futch disse a Freddie Roach que era hora de se aposentar. Mas o boxe fora toda a sua vida; aposentar-se para fazer o quê? Ele continuou a lutar, sempre perdendo, até que, por 􏰀m, a 􏰀cha caiu e ele abandonou o boxe. Conseguiu um emprego em telemarketing e passou a beber muito. Agora, odiava o esporte – dera tudo de si e não tinha nada a mostrar como resultado de seus esforços. Um dia, quase a despeito de si mesmo, voltou ao ginásio de Futch para ver o amigo Virgil Hill praticar com outro pugilista que tentava conquistar um título. Os dois lutadores treinavam sob a orientação de Futch, mas não havia ninguém no canto de Hill para ajudá-lo. Assim, Freddie levou-lhe água e ofereceu-lhe conselhos. Retornou no dia seguinte, para de novo ajudar Hill, e logo se tornou frequentador assíduo do ginásio de Futch. Como não estava sendo pago, manteve o emprego em telemarketing, mas algo nele identi􏰀cou ali uma oportunidade – e estava desesperado.


Era o primeiro a chegar e o último a sair. Conhecendo tão bem as técnicas de Futch, podia ensiná-las a todos os lutadores. E suas atribuições começaram a aumentar. No fundo da mente, não conseguia se desvencilhar do ressentimento pelo boxe, e se perguntava por quanto tempo conseguiria resistir. Era um mundo cão e os treinadores não duravam muito no negócio. Será que aquilo também se transformaria em mais uma rotina, em que ele repetiria interminavelmente os mesmos exercícios que aprendera com Futch? Algo nele ansiava por voltar a lutar – pelo menos a luta não era tão previsível.

Um dia, Virgil Hill lhe mostrou uma técnica que aprendera com alguns lutadores cubanos: em vez de trabalhar com um saco de boxe, eles praticavam principalmente com o treinador, que usava grandes luvas acolchoadas. No ringue, os lutadores lutavam com o treinador e exercitavam seus socos. Roach experimentou a técnica com Hill e seus olhos se iluminaram. Ele estava de volta ao ringue, mas não era só isso. O boxe, tal como ele o conhecia, 􏰀cara obsoleto, assim como seus métodos de treinamento. Em sua imaginação, ele via uma maneira de adaptar o trabalho com luvas, ampliando-o, para ir além da simples prática de socos. Poderia ser uma forma de o treinador desenvolver toda uma estratégia no ringue e demonstrá-la a seus lutadores em tempo real. Talvez até revolucionasse e revitalizasse o esporte em si.


Roach começou a aplicar essa ideia ao grupo de lutadores que ele agora treinava.

Passou a instruí-los em manobras que eram muito mais fluidas e estratégicas.

Em pouco tempo, ele deixaria Futch para trabalhar por conta própria. Não demorou muito para conquistar a reputação de preparar pugilistas melhor que qualquer outro treinador e em alguns anos se tornou o mais bem-sucedido treinador de sua geração.

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