• Rafael Mariano

CAMINHOS PARA A MAESTRIA

O homem deve aprender a detectar e a observar os raios de luz que fulguram em sua mente a partir do âmago, mais que o brilho do firmamento dos bardos e sábios. Porém, sem perceber, ele desdenha das próprias ideias, apenas por serem suas. Em toda obra de gênio reconhecemos velhos pensamentos rejeitados; eles retornam a nós com ar de majestade desprezada.


Se todos nascemos com cérebros basicamente semelhantes, que apresentam mais ou menos a mesma con􏰀guração e o mesmo potencial para a maestria, por que será que na história somente muito poucas pessoas parecem de fato se sobressair e realizar esse potencial? Essa é a pergunta mais importante a ser respondida. A explicação corriqueira para a existência de um Mozart ou de um Leonardo da Vinci gira em torno do talento natural e da inteligência. De que outra maneira explicar suas proezas notáveis a não ser em termos de algo inato? No entanto, milhares e milhares de crianças se destacam por habilidades e talentos excepcionais em alguma área, embora poucas acabem correspondendo às expectativas no futuro, ao passo que outras, aparentemente menos brilhantes na juventude, às vezes conseguem muito mais. Talento natural ou QI alto não explicam as realizações futuras. Como exemplo clássico, compare a vida de Francis Galton com a de seu primo mais velho, Charles Darwin. Segundo todos os critérios, Galton era um supergênio, com QI excepcional, muito mais alto que o de Darwin (conforme estimativas de especialistas, anos depois da invenção dessa medida). Galton foi um menino prodígio que mais tarde desenvolveu uma carreira cientí􏰀ca ilustre, mas jamais dominou nenhum dos campos a que se dedicou. Ele era notoriamente inconstante, como costuma ocorrer com crianças assim. Darwin, em contraste, é enaltecido, com razão, como cientista brilhante, um dos poucos gênios que mudou para sempre nossa visão da vida. Como o próprio Darwin admitiu, ele era “um garoto comum, com capacidade intelectual até um pouco abaixo do padrão. (...) Não apreendo com muita rapidez. (...) Minha capacidade de seguir um raciocínio complexo, puramente abstrato, é muito limitada”. Darwin, no entanto, devia possuir algo que faltava a Galton. De muitas maneiras, um exame da vida pregressa do próprio Darwin pode oferecer uma resposta para o mistério. Quando criança, ele tinha uma paixão obsessiva – colecionar espécimes biológicos. Seu pai, que era médico, queria que o 􏰀lho seguisse seus passos e estudasse medicina, e matriculou-o na Universidade de Edimburgo. Darwin, porém, não seguiu a carreira, e foi um estudante medíocre de artes. O pai, sem esperança de que o 􏰀lho se tornasse médico, conseguiu para ele um cargo na igreja. Ao se preparar para cumprir sua vontade, soube por um ex-professor que o navio Beagle deixaria o porto em breve para dar a volta ao mundo e que precisavam de alguém para acompanhar a tripulação e recolher espécimes a serem enviados para a Inglaterra. Apesar dos protestos do pai, Darwin aceitou a proposta. Algo o atraía para aquela viagem. De repente, a paixão por colecionar espécimes biológicos encontrou uma válvula de escape perfeita. Na América do Sul, ele conseguiu reunir o mais admirável conjunto de espécimes, assim como fósseis e ossos. E pôde conjugar seu interesse pela biodiversidade no planeta com algo maior – questões importantes sobre as origens das espécies. Ele dedicou toda a sua energia ao empreendimento, acumulando tantos espécimes que uma teoria começou a tomar – RALPH WALDO EMERSON, ensaísta americano

forma em sua mente. Depois de cinco anos no mar, retornou à Inglaterra e devotou o resto da vida à tarefa exclusiva de elaborar sua teoria da evolução. No processo, teve que trabalhar duro – por exemplo, passou oito anos estudando exclusivamente crustáceos a 􏰀m de se credenciar como biólogo. Numa Inglaterra vitoriana, também precisou desenvolver habilidades políticas e sociais re􏰀nadas para enfrentar todos os preconceitos contra sua teoria. E o que o sustentou durante todo esse longo processo foi seu amor intenso pelo tema e seu envolvimento profundo com a missão. Os elementos básicos da história de Darwin se repetem na vida de todos os grandes Mestres: uma paixão ou predileção intensa na juventude, uma oportunidade fortuita que lhe permite explorá-la, uma fase de aprendizagem em que eles se destacam com energia e foco. Todos se distinguem pela capacidade de praticar com a􏰀nco e de avançar com rapidez, sempre em consequência do desejo intenso de aprender e do engajamento profundo no campo de estudo. No âmago desse esforço desmedido encontra-se, de fato, um atributo genético e inato – não talento nem brilhantismo, que é algo a ser desenvolvido, mas uma inclinação profunda e poderosa para determinado tema. Tal pendor é re􏰁exo da singularidade da pessoa. Esse caráter único não é algo meramente poético ou 􏰀losó􏰀co – é fato cientí􏰀co que, geneticamente, cada um de nós é único; nossa composição genética exata nunca aconteceu antes e jamais se repetirá, e se manifesta em nossas preferências inatas por determinadas atividades ou objetos de estudo. Essas inclinações podem se voltar para a música ou a matemática, para certos esportes ou jogos, para a solução de problemas enigmáticos, para trabalhos manuais ou para o manejo das palavras, entre outros. Os que se destacam pela maestria tardia experimentam essa inclinação com mais profundidade e clareza, como um chamado interior, que tende a dominar seus pensamentos e sonhos. Por acaso ou mero esforço, encontram o caminho para uma carreira em que essa aptidão pode 􏰁orescer. Esse vínculo e esse anseio intensos lhes oferecem resistência para suportar a dor do processo – as dúvidas a respeito de si mesmo, as horas tediosas de estudo e prática, os retrocessos inevitáveis, as manifestações incessantes de inveja. Eles desenvolvem a resiliência e a confiança que faltam aos outros. Em nossa cultura, tendemos a equiparar capacidade intelectual com sucesso e realização. De muitas maneiras, porém, o que distingue os que dominam determinado campo de atuação daqueles que simplesmente trabalham na área é um atributo emocional. Nosso nível de desejo, paciência, persistência e con􏰀ança acaba contribuindo muito mais para o sucesso que a capacidade de raciocínio. A motivação e a energia podem superar quase tudo. A monotonia e a inconstância desconectam a mente e nos tornam cada vez mais passivos. No passado, apenas a elite e aqueles com energia e impulso quase sobre-humanos conseguiam seguir e dominar a carreira de sua preferência. Um homem nascia no meio militar, ou era preparado para o governo, escolhido entre representantes da classe certa. Se, por acaso, demonstrasse talento e desejo pelo trabalho, essa compatibilidade não passava de

mera coincidência. Milhões de pessoas que não eram parte da classe social apropriada, nem do gênero nem da etnia adequadas, eram excluídas da possibilidade de realizar sua vocação. Mesmo que alguém quisesse seguir suas inclinações, o acesso às informações e aos conhecimentos pertinentes a certa área de atuação era controlado pelas elites. Esta é a razão de ter havido relativamente poucos Mestres no passado e de eles se destacarem tanto. Essas barreiras sociais e políticas, no entanto, praticamente desapareceram. Hoje desfrutamos de um acesso à informação e ao conhecimento com que os Mestres do passado mal podiam sonhar. Agora, mais do que nunca, temos capacidade e liberdade para perseguir as inclinações que possuímos como parte de nossa singularidade genética. É tempo de desmiti􏰀car e de popularizar a genialidade. Todos estamos mais perto do que supomos dessa inteligência. (A palavra “gênio” vem do latim e se referia, de início, a um espírito guardião que assistia o nascimento de cada pessoa; mais tarde, passou a se referir às qualidades inatas que conferem a cada indivíduo atributos únicos.) Embora estejamos passando por um momento histórico rico em oportunidades para alcançar a maestria, em que cada vez mais pessoas podem realizar suas inclinações, enfrentamos um último obstáculo para exercer esse poder, algo cultural e perigoso: o próprio conceito de maestria se denegriu ao se associar a atributos ultrapassados e até indesejáveis. Assim, a maestria deixou de ser algo a que aspirar. Essa mudança de valores é recente e pode ser explicada por circunstâncias peculiares de nossa época. Vivemos em um mundo que parece em descontrole crescente. Nossa vida está à mercê das forças da globalização. Os problemas com que nos defrontamos – econômicos, ambientais e outros – não podem ser resolvidos por nossas ações individuais. Os políticos estão distantes e são insensíveis aos nossos desejos. Quando as pessoas se sentem assoberbadas, a reação natural é recuar para várias formas de passividade. Se não tentamos e não experimentamos muitas coisas na vida, se limitamos o âmbito de nossas ações, podemos obter a ilusão de controle. Quanto menos tentamos, menores são as chances de fracasso. Se nos convencemos de que realmente não somos responsáveis por nosso destino, pelo que acontece em nossa vida, nossa impotência notória se torna mais palatável. Por esse motivo, nos sentimos atraídos por certas “desculpas”: é a genética que determina em grande parte nosso destino; somos produtos de nossa época; o indivíduo é mero mito; o comportamento humano pode ser reduzido a tendências estatísticas. Muitas pessoas levam um pouco mais longe essa mudança de valores, revestindo a própria passividade com uma camada positiva. Elas romantizam o artista autodestrutivo, que perde o controle de si mesmo. Qualquer coisa que lembre disciplina ou esforço parece meticulosidade ou preciosismo ultrapassado. O que importa é o sentimento por trás da obra de arte, e qualquer indício de dedicação ou empenho transgride esse princípio. Passa-se a valorizar a espontaneidade e a impetuosidade. A noção de que é preciso muito esforço para alcançar o que se almeja foi corroída pela proliferação de dispositivos que fazem boa parte do trabalho, promovendo a ideia de que se merece tudo isso – que é direito natural ter e

consumir tudo o que se quer. “Por que trabalhar tantos anos para alcançar a maestria se podemos ter tanto poder com tão pouco esforço? A tecnologia resolverá tudo.” Essa passividade assumiu até uma posição moral: “A maestria e o poder são perversos; não passam de atributos das elites patriarcais que nos oprimem; o poder é intrinsecamente mau; é melhor se excluir totalmente do sistema”, ou ao menos dar essa impressão. Quem não se mantiver atento será contagiado de maneira imperceptível por essa atitude. Inconscientemente, você estreitará sua lista de objetivos possíveis de serem alcançados, reduzindo, em consequência, seus níveis de esforço e disciplina, 􏰀cando abaixo do ponto de e􏰀cácia. Ajustando-se às normas sociais, você ouvirá mais os outros que sua própria voz. Talvez escolha uma carreira com base nas recomendações dos amigos e dos pais, ou em função do que lhe pareça lucrativo. Se você se desvia de sua vocação interior, pode até ter algum sucesso na vida, mas acabará vítima de seu verdadeiro desejo. Seu trabalho se torna mecânico. Você passa a viver para o lazer e para prazeres imediatos. Assim, torna-se cada vez mais passivo e nunca avança além da primeira fase. Você pode 􏰀car frustrado e deprimido, sem se dar conta de que a fonte de tudo isso é a não realização de seu potencial criativo. Antes que seja tarde demais, é preciso encontrar o caminho para a concretização de suas inclinações, explorando as incríveis oportunidades da era em que você nasceu. Conhecendo a importância do desejo e de suas ligações emocionais com o trabalho, que são a chave da maestria, você pode, de fato, fazer com que a passividade de nosso tempo trabalhe em seu favor e sirva como motivação de duas maneiras importantes. Primeiro, você deve encarar essa tentativa de alcançar a maestria como algo extremamente necessário e positivo. O mundo está cheio de problemas, e muitos foram criados por nós. A solução deles exigirá um alto grau de esforço e criatividade. Recorrer à genética, à tecnologia e à mágica ou ser descontraído, espontâneo e natural não nos salvará. Precisamos de energia não só para tratar de questões práticas, mas também para forjar instituições e políticas compatíveis com as novas circunstâncias. Devemos criar nosso próprio mundo ou morreremos de inação. Temos que restabelecer o conceito de maestria, que nos definiu como espécie muitos milhões de anos atrás. Não se trata de maestria com a intenção de dominar a natureza ou outras pessoas, mas no intuito de de􏰀nir nosso destino. A atitude de passividade irônica não é positiva nem romântica, mas patética e destrutiva. Em vez disso, precisamos dar o exemplo do que pode ser realizado pelos Mestres no mundo moderno. Assim, estaremos contribuindo para a causa mais importante de todas – a sobrevivência e a prosperidade da espécie humana numa época de estagnação. Segundo, você deve se convencer do seguinte: as pessoas desenvolvem a mente e o cérebro que merecem por meio de suas ações na vida. Apesar da popularidade das explicações genéticas para nosso comportamento, descobertas recentes da neurociência estão revogando crenças tradicionais de que o cérebro é constituído pela genética. Os cientistas estão demonstrando a extensão da plasticidade do cérebro – a maneira como nossos pensamentos determinam nosso panorama mental. Eles estão explorando a relação entre força de vontade

e 􏰀siologia, sondando a profundidade com que a mente pode afetar nossa saúde e nosso comportamento. É provável que ainda se descubra muito mais sobre a intensidade com que impregnamos vários padrões em nossa vida por meio de certas operações mentais – sobre como somos verdadeiramente responsáveis por grande parte do que acontece conosco. As pessoas passivas criam um panorama mental um tanto árido. Em consequência de suas poucas experiências e iniciativas, todos os tipos de conexões do cérebro perecem por falta de uso. Para se opor à tendência de passividade dos tempos atuais, é preciso se empenhar para ver até que ponto é possível controlar as próprias circunstâncias e criar o tipo de mente almejada – não por meio de alucinógenos nem de medicamentos, mas em consequência da ação. Ao liberar a mente magistral oculta em seu âmago, você estará na vanguarda dos que exploram os limites estendidos da força de vontade humana.

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