• Rafael Mariano

A EVOLUÇÃO DA MAESTRIA

Durante três milhões de anos, fomos caçadores-coletores, e foi em consequência das pressões evolucionárias desse estilo de vida que acabou emergindo um cérebro tão adaptável e criativo. Hoje, continuamos com o cérebro de caçador-coletor no crânio.


É difícil imaginar agora, mas nossos primeiros ancestrais humanos que se aventuraram pelas planícies da África oriental, há aproximadamente seis milhões de anos, eram criaturas extremamente frágeis e vulneráveis. Tinham cerca de um metro e meio de altura. Andavam eretos e podiam correr com as duas pernas, mas nunca, nem de longe, tão rápido quanto os predadores quadrúpedes que os perseguiam. Eram magros – seus braços não lhes ofereciam muita defesa. Não tinham garras, nem presas, nem veneno a que recorrer quando atacados. Para colher frutas, castanhas e insetos ou para rapinar carniça, eles tinham que se aventurar pelas savanas abertas, onde se tornavam presas fáceis de leopardos ou de alcateias de hienas. Fracos e pequenos, tudo indicava que estavam fadados à extinção. No entanto, no intervalo de alguns milhões de anos (muito pouco na escala de tempo da evolução), esses nossos ancestrais, 􏰀sicamente tão inexpressivos, se transformaram nos mais notáveis caçadores do planeta. O que poderia explicar essa virada maravilhosa? Há quem especule que foi a condição de bípede, que liberou as mãos para fazer ferramentas com a ajuda inestimável dos polegares opositores e da capacidade de segurar objetos. Mas essas explicações físicas desconsideram um aspecto fundamental. Nossa dominância, ou maestria, não está nas mãos nem nos pés, mas no cérebro, no desenvolvimento da mente humana como o mais poderoso instrumento conhecido na natureza, muito mais potente que qualquer garra. E na raiz dessa transformação mental se encontram dois traços biológicos simples – o visual e o social – que os seres humanos primitivos alavancaram à condição de poder. Nossos ancestrais remotos descenderam dos primatas que saltaram durante milhões de anos nas copas das árvores e que, no processo, aprimoraram um dos mais notáveis sistemas visuais da natureza. Para se movimentar com rapidez e e􏰀ciência nesse mundo arborizado, desenvolveram uma coordenação ocular e muscular extremamente so􏰀sticada. Os olhos aos poucos evoluíram para uma posição cem por cento frontal na face, proporcionando-lhes uma visão binocular (ou estereoscópica). Esse sistema fornece ao cérebro uma perspectiva tridimensional e detalhista altamente precisa, mas um tanto estreita. Os animais que

possuem esse tipo de visão frontal, em vez de olhos laterais, são, em geral, predadores e􏰀cientes, como corujas e felinos. Eles usam essa visão poderosa para localizar a presa à distância. Os primatas arborícolas desenvolveram essa visão para outro propósito: transitar nos galhos e localizar frutos e insetos com maior e􏰀cácia. Também apuraram a so􏰀sticada capacidade de distinguir cores. Quando nossos primeiros antepassados humanos deixaram as árvores e avançaram para as savanas abertas, eles passaram a adotar a posição ereta. Já dotados desse poderoso sistema visual, podiam enxergar mais longe (as girafas e os elefantes são mais altos, mas seus olhos são laterais, oferecendo-lhes, em vez disso, a visão panorâmica). Essa característica lhes permitia localizar predadores perigosos no horizonte e detectar os movimentos deles mesmo no crepúsculo. Em poucos segundos ou minutos, conseguiam escapar em segurança. Ao mesmo tempo, quando focalizavam o que estava mais perto, ao alcance das mãos, podiam identi􏰀car todos os tipos de detalhes importantes no contexto – pegadas e sinais de predadores nas proximidades ou as cores e formas de rochas que podiam apanhar e talvez usar como ferramentas. Nas copas das árvores, essa visão poderosa possibilitava que se deslocassem com velocidade – vendo e reagindo com rapidez. Nas planícies abertas, era o oposto. A segurança e a descoberta de alimentos dependia da observação lenta e paciente do contexto, da capacidade de perceber e interpretar detalhes, concentrando-se em seu signi􏰀cado. A sobrevivência de nossos ancestrais se baseava na intensidade de sua atenção. Quanto mais tempo olhavam, mais eram capazes de distinguir entre oportunidades e ameaças. Se simplesmente varressem depressa o horizonte, poderiam ver muito mais; no entanto, dessa maneira, sobrecarregariam a mente com informações – detalhes demais para uma visão tão aguçada. O sistema visual humano não foi feito para amplitude de foco, mas, sim, para profundidade de foco. Os animais estão presos em um presente perpétuo. Até podem aprender com acontecimentos recentes, porém se distraem facilmente com o que está diante de seus olhos. Aos poucos, durante um longo período, nossos ancestrais superaram essa fraqueza animal básica. Ao observar durante tempo su􏰀ciente qualquer objeto e não dispersar a atenção – mesmo que por alguns segundos – eles eram capazes de se alienar do ambiente circundante. Dessa maneira, detectavam padrões, faziam generalizações e previsões. Tinham o distanciamento mental para pensar e refletir, mesmo na escala mais diminuta. Esses primeiros humanos cultivaram a capacidade de se separar do contexto e de apreender o abstrato como principal vantagem na luta para evitar predadores e encontrar alimentos, algo que os conectava a uma realidade inacessível para os outros animais. Esse nível de pensamento genérico foi o mais importante ponto de virada de toda a evolução – o surgimento da consciência e do raciocínio. A segunda vantagem biológica é mais sutil, embora igualmente poderosa em suas implicações. Todos os primatas são, em essência, criaturas sociais, mas, em consequência de sua grande vulnerabilidade em áreas abertas, nossos primeiros ancestrais necessitavam muito

mais de coesão grupal. Eles dependiam do grupo para a observação vigilante dos predadores e para a coleta de alimentos. Em geral, os primeiros hominídeos mantinham muito mais interações sociais que os outros primatas. Ao longo de centenas de milhares de anos, essa inteligência social se tornou cada vez mais so􏰀sticada, possibilitando que nossos ancestrais cooperassem uns com os outros em um nível superior. E, da mesma maneira que acontece com nossa compreensão do ambiente social, essa inteligência dependia da atenção e do foco profundos. A interpretação equivocada dos sinais sociais em grupos muito interligados podia se revelar extremamente perigosa. Por meio do aprimoramento desses dois traços – o visual e o social – nossos antepassados primitivos foram capazes, cerca de dois a três milhões de anos atrás, de inventar e de desenvolver a habilidade complexa de caçar. Lentamente, eles se tornaram mais criativos, re􏰀nando essa aptidão complexa até torná-la uma arte. Eles se transformaram em caçadores sazonais e se espalharam pela massa continental eurasiática, conseguindo se adaptar a todos os tipos de climas. E, no processo dessa rápida evolução, seu cérebro cresceu até atingir o tamanho atual, há uns 200 mil anos. Na década de 1990, um grupo de neurocientistas italianos descobriu algo que pode ajudar a explicar a destreza progressiva de nossos ancestrais primevos como caçadores, e, por sua vez, algo sobre a maestria em si, tal como ela existe hoje. Ao estudar o cérebro dos macacos, eles descobriram que determinados neurônios que comandam os movimentos entram em ação não só quando os animais executam atividades muito especí􏰀cas – como puxar uma alavanca para conseguir um amendoim ou segurar uma banana – mas também quando observam outros macacos fazendo as mesmas coisas. Eles logo foram denominados neurônios-espelho. Essas ativações neuronais indicam que os primatas experimentam sensações semelhantes tanto praticando quanto observando a mesma ação, permitindo-lhes que se coloquem no lugar do outro e percebam os movimentos alheios como se fossem próprios. Isso explica a capacidade de muitos primatas de imitar e a habilidade muito apurada dos chimpanzés de prever os planos e as ações de um rival. Especula-se que esses neurônios evoluíram em consequência da natureza social dos primatas. Experimentos recentes demonstraram a existência desses neurônios em humanos, mas em nível de so􏰀sticação muito mais alto. Os macacos e, em geral, os primatas, podem ver uma ação do ponto de vista do executor e imaginar suas intenções, mas os humanos vão mais longe. Sem pistas visuais nem ações alheias, podemos nos colocar dentro de outras mentes e imaginar o que estão pensando. O desenvolvimento dos neurônios-espelho permitiu que nossos ancetrais lessem os desejos uns dos outros com base nos sinais mais sutis e, assim, aprimorassem suas habilidades sociais. Também atuou como componente essencial na fabricação de ferramentas – aprendia-se a fazer ferramentas imitando as ações de um especialista. No entanto, talvez ainda mais importante, isso os tornava capazes de pensar dentro de tudo ao seu redor. Depois de estudar, durante anos, determinados animais, eles podiam se identi􏰀car com eles e pensar

como eles, prevendo padrões de comportamento e aumentando a capacidade de rastrear e de matar a presa. Essa capacidade de pensar dentro era aplicável também ao mundo inorgânico. Ao produzir ferramentas de pedra, os artí􏰀ces sentiam como se fossem um de seus instrumentos. A pedra ou madeira com que cortavam se tornava uma extensão de suas mãos. Podiam percebê-la como se fosse a própria carne, o que possibilitava um controle muito mais apurado das ferramentas em si, tanto na fabricação quanto no uso. Esse poder da mente podia ser liberado apenas depois de anos de experiência. Uma vez dominada certa habilidade – rastrear presas, fabricar ferramentas – ela se tornava automática, e, assim, ao exercê-la, a mente não precisava mais se concentrar nas ações especí􏰀cas para a obtenção do resultado almejado, mas, sim, dedicar-se a algo mais complexo: o que a presa poderia estar pensando, de que maneira a ferramenta era percebida como parte das mãos. Esse pensar dentro seria uma versão pré-verbal da inteligência de terceiro nível – o equivalente primitivo da sensação intuitiva da anatomia ou da paisagem, percebida por Leonardo da Vinci, ou do eletromagnetismo, percebido por Michael Faraday. A maestria nesse nível significava que nossos ancestrais podiam tomar decisões com rapidez e e􏰀cácia depois que passavam a compreender em profundidade o ambiente e a presa. Se esse poder não tivesse evoluído, a mente deles logo 􏰀caria sobrecarregada com a massa de informações que tinham que processar para uma caçada bem-sucedida. Eles já haviam desenvolvido esse poder intuitivo centenas de milhares de anos antes da invenção da linguagem, e é por isso que, ao experimentarmos essa inteligência, temos a impressão de ser algo pré-verbal, de um poder que transcende nossa capacidade de expressá-lo em palavras. É preciso entender que esse longo período desempenhou um papel fundamental em nosso desenvolvimento mental. Ele alterou a essência de nossa relação com o tempo. Para os animais, o tempo é o grande inimigo. Se são presas potenciais, vaguear durante muito tempo pode signi􏰀car morte instantânea. Se são predadores ativos, espreitar durante muito tempo apenas acarretará a fuga da presa. O tempo para eles também representa decadência física. Em grande parte, nossos ancestrais caçadores reverteram esse processo. Quanto mais tempo passavam observando algo, mais profundamente compreendiam e se conectavam com a realidade. Com a experiência, as habilidades de caçador prosperavam. Com a prática contínua, a capacidade de produzir ferramentas e􏰀cazes aumentava. O corpo podia decair, mas a mente continuava a aprender e a se adaptar. Esse uso do tempo é o ingrediente essencial da maestria.

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